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Editoriais 19/03/2001

Na semana passada, a Associação Brasileira de Bancos, ABBC, reuniu cerca de 100 pessoas, entre elas muitos executivos de bancos, para três conferências sobre o novo sistema de pagamentos que estará em operação a partir de outubro de 2001. Grandes mudanças ocorrerão, afetando os bancos, corretoras e distribuidoras de valores, os fundos de investimentos e as empresas privadas e públicas, bem como pessoas físicas que utilizam o sistema bancário brasileiro.

A reunião foi aberta por Jorge Eduardo Prada Levy - Presidente da ABBC, que resumiu as mudanças da seguinte maneira: "Os sistemas de compensação de cheques vão migrar para o sistema de reservas. Cai o risco de insolvência. Mas vai aumentar o risco de liquidez necessária e o controle minuto a minuto. A ABBC é responsável por mais de 50% da compensação. E então tem se dedicado à ajudar a migração especialmente para os pequenos bancos".

Em seguida, falou o Chefe do Departamento de Bancos do Banco Central do Brasil, Deban, Luis Gustavo da Matta Machado, também representante do Brasil junto ao BIS (Banco da Basiléia) no que diz respeito aos sistemas de pagamentos dos bancos.

Em tom de brincadeira, Luis Gustavo disse que poderia resumir sua palestra na seguinte frase: "Os prazos não mudam, perguntas por favor". Em seguida foi mais explícito, dizendo em resumo o seguinte:

"O foco do Banco Central com essas mudanças é o risco sistêmico, queremos reduzi-lo. Hoje o BC assume esse risco, que se traduz em saldos negativos nas contas de reservas bancárias. Isso irá passar para as "Clearings". As mudanças essenciais são duas:

  • A reserva bancária de cada banco não poderá ficar nem um centavo negativa;
  • As Clearing Houses irão conceder limites aos seus associados; se alguém ficar inadimplente uma determinada Clearing assume via exigência de garantias. O que vai implicar que as Clearings exijam ativos de alta liquidez. O modelo que estamos adotando é o europeu, de crédito intra-dia; haverá crédito forte e barato para títulos públicos que estejam na custódia e o custo do redesconto será zero. O BC quer monetizar o sistema bancário para não que não haja constrangimento de liquidez e fará isso via redesconto intra-dia. Se não fosse assim, poderíamos afetar a taxas de juro e ter impactos na política monetária".

Continua o Chefe do Deban dizendo que:

"O volume global de títulos públicos livres nas carteiras é grande mas cada banco terá o dever de buscar qual é o volume necessário de títulos públicos federais para garantir seus negócios. E isso tem que ser feito já porque o novo sistema entra experimentalmente em 1º de agosto. Será possível ter o CDI intra-dia mas nenhuma instituição vai contar de maneira firme com um CDI intra-dia. As Clearings serão as seguintes:

  • De Pagamentos, tipo NewChips, já constituída;
  • De Cambio, que deve ser apresentada pela BM&F;
  • De Derivativos da BM&F, que já existe;
  • CLC, que se estenderá para renda fixa;
  • Cetip, que se alongará para outros papéis".

"Haverá um avanço muito grande nos processos de comunicação entre o Banco Central, as Clearings, e seus custodiados, avanço esse que implicará em um salto tecnológico extremamente importante; trata-se pois de uma mudança cultural enorme envolvendo as contas de reservas bancárias. Os bancos receberão mensagens de cobrança pois as multas (como são atualmente) vão acabar, haverá uma mensagem de cobrança, os bancos atuados terão que dar o comando de pagamento. A transferência de um banco para outro será outra mudança representativa. O contato com clientes terá que ser revisto pelos bancos. O cheque é caro. Mas aqui é o grande instrumento de pagamentos. O Sistema STR (Sistema de Transferência de Reservas) exigirá atenção instantânea e contínua dos bancos, que deverão monitorar seus efeitos nas contas correntes, seus efeitos nas Clearings, etc. Todos os aspectos de controles internos, softwares, pilotos de reserva, os sistemas legados , tudo terá que ser revisto".

"O projeto envolverá uma profunda capacitação e revolução tecnológica, incluindo os processos de mensageria, dos roteadores, os aspectos ligados a fraudes internas e externas. Outro ponto fundamental é que, uma vez realizada a operação Selic, ela é definitiva, não volta. Se houver fraude, adeus recurso de reserva. O BC não vai interferir. É problema da Clearing e da contra - parte.

Disse ainda o Chefe do Deban: "O BC conversou com cada banco por 40 minutos no ano passado. Nessas conversas de dezembro de 2000 notamos que o sistema bancário estava em diferentes níveis de preparo; alguns não tinham a menor idéia do que estávamos falando. Os absolutamente ignorantes sobre o tema passaram a dar atenção. Estamos há 4 meses da implantação. Abril, testes opcionais. Junho, testes obrigatórios. Os limites irão caindo. A partir de 1º de outubro zero para limite de saldo na conta de reservas". "Contem com o BC , tragam as dificuldades. Nós do BC estamos também correndo atrás de prazos. Observo que os impactos importantes serão os seguintes:

  • Capacitação tecnológica - haverá mecanismos de contingência, tem um custo;
  • Análise da necessidade do dimensionamento do tamanho das carteiras de títulos públicos para a liquidez intra-dia e parcela liquida de hoje por compensação;
  • Controles internos, aspecto de fraudes;
  • Os costumes de pagamentos por cheques terão que ser alterados".

Encerrando sua palestra, o chefe do Deban completa seu raciocínio: "Sistemas internos mudam completamente, não fica pedra sobre pedra. As soluções serão de mercado . Nem pensar que nós vamos normalizar o mercado. Isso é negocial. A rede bancária deveria estar negociando com sua clientela. Em algum momento os bancos vão estar mostrando seus novos produtos, muito interessantes, a indústria bancária vai mudar. É trabalho de corpo a corpo. Vai haver uma campanha institucional mas não substituirá o corpo a corpo".

Como se vê desse pronunciamento, o novo Sistema de pagamentos envolverá profundas mudanças, quer no Banco Central, quer em relação ao processo de relacionamento entre os bancos e o BC com a introdução das Clearing Houses, quer nas relações entre os bancos e seus clientes, quer no desenho dos produtos bancários.

Pelo que a EFC depreendeu dessa palestra e das outras duas que se seguiram, as principais dificuldades na implementação do novo Sistema de Pagamentos são as seguintes:

  1. Os prazos são muito curtos e existe ainda desinformação a respeito; a imprensa praticamente nada publicou sobre o tema;
  2. Existem aspectos de segurança que ainda estão para ser resolvidos, sendo os principais problemas as questões tecnológicas ligadas aos modelos de criptografia que as Clearing Houses adotarão; as questões de prevenção de fraudes e dos riscos operacionais; a determinação do estoque de títulos públicos em garantia;
  3. Muitos altos dirigentes de bancos possuem pouca formação tecnológica e então delegam as questões dessa natureza ao diretor encarregado de sistemas, sem que exerçam controle sobre ele, o que se constitui em um risco de gerenciamento;
  4. Os chamados "sistemas legados", de concepção fechada, em geral antigos, muitas vezes originalmente desenhados em linguagens já totalmente obsoletas, sem documentação adequada, precisarão ser substituídos por arquiteturas modernas, interativas, voltadas para os usuários. Mas alguns altos executivos tem pavor dessas mudanças, que não dominam mas sabem serem muito caras. Agora chegou a hora de facear o problema, visto que todos os sistemas periféricos terão que dar "inputs" precisos e em tempo real ao "piloto das reservas", ele próprio será um sistema integrador e regulador;
  5. Cada banco terá que ter um fluxo de caixa em tempo real, mas com conexão com suas projeções no maior horizonte possível, que seja dinâmico e automático;
  6. O principal executivo do banco passará ter que acompanhar a evolução instantânea de sua liquidez, qual um piloto de uma grande aeronave o faz, contando com um painel de controle "on line, real time".

Como se supõe que os bancos já se organizaram? A EFC imagina que os seguintes passos já devem ter sido dados:

  1. Criada uma Comissão de estudos, incluindo representantes da alta direção, da tecnologia, das áreas de negócio do banco ( crédito, carteiras, asset management, leasing, etc) e das áreas de suporte e controle (contabilidade, controladoria, tesouraria, compliance, auditoria, marketing, produtos, etc);
  2. Diagnosticada a atual situação dos sistemas do banco e das implicações do novo sistema de pagamentos;
  3. Feito acompanhamento da evolução externa (BC, Clearings, concorrentes, consultores, softhouses, etc);
  4. Elaborado um plano de ação, definindo responsabilidades, cronogramas e orçamentos;
  5. Estabelecidos a Coordenação e o Controle da a implementação do plano até a completa realização das metas.

Muito trabalho para ser feito, com prazos fatais. Conforme nos disse o Chefe do Deban, "os prazos não mudam, perguntas por favor".

Este informativo é editado por responsabilidade de Carlos Daniel Coradi, Presidente da EFC-Engenheiros Financeiros & Consultores.
 Tel.: (11) 3266.2841; Fax: (11) 3266.2839; efc@efc.com.br; Skype: efc-consultores. Sugestões são bem vindas.
A responsabilidade pelos comentários econômicos do "Opinião" é do Economista Mário Sérgio Cardim Neto.

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