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Editorial: As corretoras de valores - Parte II
André Cappon e Carlos Daniel Coradi
No “Opinião” de 10/06/2011 abordamos o tema das Corretoras de Valores do Brasil, que, conforme mostramos, se agrupam em duas características, as que pertencem a grandes conglomerados financeiros, como por exemplo as do Bradesco, Itaú, HSBC, Santander, etc. e as que são consideradas independentes, como Souza Barros, Spinelli, Isoldi, Indusval, Convenção, etc. Neste número do “Opinião” vamos ampliar nossa análise, com a colaboração do Dr. André Cappon, Presidente do CBM Group. André é um velho conhecido dos brasileiros, foi nosso sócio em dois importantíssimos Projetos no Brasil, o Plano Estratégico da BM&F (1995) e o Projeto Internacional de Riscos de Crédito do Banco do Brasil (2001).
Nessa ampliação de horizontes, começamos olhando os fenômenos dos anos 90, quando as Bolsas de Valores e de Mercadorias começaram a passar pelo processo de desmutualização. Até essa fase, elas eram sociedades sem fins lucrativos, que ao invés de distribuir lucros, auxiliavam seus associados, as suas corretoras, com uma série de benefícios, procurando maximizar as oportunidades para seus membros. Por sua vez, os proprietários das corretoras em geral eram membros das Direções e Conselhos das Bolsas, envolvidos nas suas questões de governança, mas dentro de um verdadeiro mecanismo simbiótico.
Quando o processo de mutação começou na Europa, um pouco na linha sonhadora de um “mercado pan europeu”, ele gerou lançamentos de ações, através do mecanismo de IPO’s, tendo sido recebido com entusiasmo pelos investidores por duas razões básicas, uma promessa de retornos muito bons, superiores às demais ações e uma franca perspectiva de crescimento desse negócio, que acenava com margens de lucro promissoras. Adicionalmente, esses ganhos eram sustentados por receitas crescentes em um ambiente de custos usualmente fixos ou pelo menos semi fixos, o que atraiu mais investidor e acelerou em várias partes do mundo o processo de desmutualização.
Da Europa o fenômeno chegou aos Estados Unidos nas Bolsas de Valores e se estendeu para os mercados de futuros. De fato, em 13 de novembro de 2000,a Chicago Mercantile Exchange, “CME”, se tornou a primeira bolsa de commodities a se desmutualizar, lançando logo depois, em Dezembro de 2002 seu IPO. Em seguida, a irmã gêmea da CME, a Chicago Board Of Trade, “CBOT”, passa em 2005 por um processo similar, “tendo previamente sido uma empresa de fins não lucrativos, auto regulada, registrada em Delaware, para servir indivíduos e as firmas membro”.
No Brasil, as duas principais bolsas, a centenária Bovespa e a Bolsa de Mercadorias e Futuros, a bem sucedida BM&F, entram no processo de desmutualização e em seguida lançam seus respectivos IPO’s, cujas ações saíram com relações de preço-lucro superiores a 50! Em seguida, as duas se unem (2008) para formar um única entidade jurídica, a BM&FBovespa, sob o conceito de economia de escala. Curiosamente, juntando diferentes mercados, junção essa que até então era considerada por alguns acadêmicos como “água e óleo”, imiscíveis, portanto.
O próximo movimento mundial chamou-se “consolidação”. Em linguagem técnica, esse termo significa fusões de entidades similares com o objetivo central de ganhar economia de escala. Entre as bolsas, diversos grandes players entraram nessa fase, buscando sinergias de custos, imaginadas como 10 a 25% da base combinada de custos, bem como eventualmente sinergias de receitas. Exemplos importantes são a CME, a bolsa gigante de ações de Nova Iorque, a NYSE, o próprio mercado eletrônico de empresas de tecnologia, o NASDAQ, a Bolsa Alemã, DB, etc. Essa fase criou uma valorização de seus ativos jamais vista, extrapolando as fronteiras dos países e criando movimentos intercontinentais de consolidação. Por exemplo, a London Stock Exchange com a Bolsa da Itália, a junção da NYSE com a Euronext, etc.
E os Corretores de Valores e de Mercadorias? Muitos simplesmente venderam seus títulos patrimoniais ou se transformaram em meros participantes, comprando e vendendo títulos como o fizeram na origem de suas atividades, cem anos atrás. Esse fenômeno gerou tensões e conflitos entre eles e suas antigas bolsas.
No caso do Brasil, há uma grande dicotomia entre as corretoras que pertencem aos grandes bancos e as corretoras menores independentes. Uma análise da rentabilidade desses dois grupos mostrou diferenças muito grandes, indicando que algo na linha de consolidações deverá ocorrer de modo mais forte. O quadro abaixo mostra essas diferenças de forma acentuada: enquanto as corretoras de conglomerados obtiveram um retorno de 16,63% sobre o patrimônio em 2010, as independentes ficaram com humildes 4,03%; já o sistema bancário brasileiro apresentou uma taxa ponderada de retorno de 20,14%, um pouco maior do que o retorno de suas corretoras, mas cinco vezes maior do que retorno das independentes. 
Resta agora saber quais caminhos as independentes irão seguir nos próximos anos. Fusões, busca de novos nichos, internacionalização, aglutinação e parcerias, são idéias que precisam pesquisa e aprofundamento. O exame do que aconteceu em outros países também pode ser indicativo de caminhos. A montagem de uma ampla base de dados, a exemplo da que a EFC possui para bancos é uma ferramenta importantíssima de análise. Certamente algumas corretoras acharam bons caminhos e o mapeamento dessas soluções poderá ajudar. Acima de tudo, criatividade, crença no setor, trabalho organizado e muito suor certamente trarão soluções.
Projeto do Consórcio EFC - CBM - A.T. Kearney, 2001-2002; Carlos Coradi foi o Coordenador Técnico e André Cappon, do CBMGroupfez as modelagens analíticas para as 16 diferentes carteiras de crédito do BB.
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Este informativo é editado por responsabilidade de Carlos Daniel Coradi, Presidente da EFC-Engenheiros Financeiros & Consultores.
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A responsabilidade pelos comentários econômicos do "Opinião" é do Economista Mário Sérgio Cardim Neto.
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