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Editoriais 02/02/2001

Hoje vou me afastar dos temas econômico-financeiros que esse editorial vem tratando há mais de cinco anos, todas as semanas. Ele, diferentemente dos demais, é dedicado a uma personalidade com que tive a honra de trabalhar e que já se foi desse mundo dos vivos há quase vinte anos.

Dr. Jacob, como carinhosa e temerosamente todos os que o conheceram o chamavam, era um homem tenaz, determinado, vigoroso. Eu o conheci já idoso, os olhos pequenos brilhando, agudos e penetrantes, se focalizando em quem dele se aproximava. Pesadão, a se mover pelos corredores do "bunker" onde funcionava seu staff, tudo olhando, tudo querendo saber, pensativo mas ao mesmo tempo loquaz, bravo e gentil, alegre e triste, alternava com maestria esses opostos, certo, em seu íntimo, de que assim melhor conseguiria seus objetivos.

Advogado formado no Largo São Francisco, deve ter convivido com Frederick Taylor em outra vida, pois tinha tudo para ter sido um engenheiro de tempos e métodos, tal era sua paixão pelos detalhes e processos burocráticos. Mas não perdia a macro visão, o sentido do todo, os movimentos principais. Sempre se cercou dos melhores advogados e profissionais, reunindo nomes da estirpe de Alcides Jorge Costa, Fabio Comparato, Mauro Conceição, José Gregori e muitos outros, cujos nomes já não me recordo mais.

Como cuidava de dezenas de empresas em seus negócios, tinha arquivos enormes, em época em que os computadores ainda não existiam. Cada tema tinha uma cor, todas pastas eram identificadas nas lombadas por códigos dos assuntos, por referências cuidadosamente normografadas, pastas essaspadronizadas em seu tamanho e feitio. Aliás, padronização era o que exigia de toda equipe de advogados e assessores que lhe cercavam. Ninguém ousasse lhe entregar algo escrito em um pedaço de papel fora das medidas, a "bronca" seria pesada, pois a falta de padrão, para o Dr. Jacob, iria dificultar o arquivo do documento e causar sua eventual perda.

Fazia questão de não trabalhar com hierarquia, organogramas, funções fixas. E nisso, se aproximava dos modernos modelos de organizações flexíveis, propugnadas pela teoria de sistemas. Mas aí era intuitivo, não lera Bertanfly e portanto não discorria sobre sistemas abertos e sobre sua habilidade de conviver com o incerto.

Dr. Jacob tinha um assessor que, escapando da maioria, não era advogado. Se chamava Goswin Karmann e se foi para o outro mundo mais ou menos na mesma época que ele. Karmann tinha uma interessante característica: de tudo conhecia um pouco. Poliglota, químico, autodidata, discutia variantes florestais, tecnologia mecânica, legislação ambiental, vida animal, economia, matemática, física. Ele era a única pessoa, das que trabalhavam com o Dr. Jacob, que tinha intimidade para chama-lo pelo primeiro nome, sem a referência de Doutor. E Dr. Jacob respeitava e ouvia Karmann. Tanto que a ele fora dada uma missão de máxima importância: servir de conselheiro ao único filho homem do Dr. Jacob, orientando-o desde cedo em sua educação.

Esse filho de fato se preparou intensamente para ser uma rara combinação de acadêmico e empresário, balisado pelas linhas mestras de sua educação. Terminou Direito, como o pai, no Largo São Francisco; fez seu doutoramento em ciências políticas em Cornell, com uma tese sobre Juscelino Kubsticheck e seu plano de metas; defendeu livre docência e a cátedra de direito internacional. Virou Ministro de Relações Exteriores do Brasil; Ministro do Desenvolvimento; e na data de hoje, voltou a assumir a posição de principal chanceler do Brasil . Seu nome? Celso Lafer.

Em sua posse, vi o espírito de Abraão Jacob Lafer presente na cerimônia de transmissão do cargo. Lá estava ele, vaidoso pelo filho que teve, observando-o em momento de dedicação aos problemas brasileiros, ponto culminante de sua carreira, para qual tanto se preparou. O espírito do Dr. Jacob e nós, ainda seres vivos, olhamos o sucesso dessa nova fase de Celso Lafer, cheios de esperança em seu trabalho por um Brasil melhor, mais justo, com menores desigualdades, com menos violência. Temos certeza, o Professor Celso Lafer irá contribuir para isso de modo relevante a frente, novamente, do Itamaraty.

Este informativo é editado por responsabilidade de Carlos Daniel Coradi, Presidente da EFC-Engenheiros Financeiros & Consultores.
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A responsabilidade pelos comentários econômicos do "Opinião" é do Economista Mário Sérgio Cardim Neto.

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