Editorial: Crise no mercado mundial
Por Carlos Daniel Coradi
Finalmente em 3 de outubro de 2008 o pacote de ajuda à crise bancária americana foi aprovado, com um orçamento de U$ 850 bilhões à disposição do secretário do tesouro americano para gradualmente solver o enorme caos provocado pelo foco central do problema imobiliário americano. Nós vamos neste número do “Opinião” fazer um retrospecto dos fatos principais em nível mundial. Por essa razão, excepcionalmente, teremos mais de uma página, “violando” nosso formato padrão.
1) 2005: A raiz da crise começa com o encarecimento do preço dos imóveis residenciais americanos, que a partir de um índice de 100 no ano 2000 atinge 185 em 2005. Entusiasmados pelo crédito barato, a classe média americana entrou firme na expansão de seus gastos, trocando suas casas por imóveis maiores, mais luxuosos e certamente financiados.
2) 2006: A partir desse pico, os preços dos imóveis começaram a cair; como todos eles geravam hipotecas, e como tais hipotecas eram negociadas em forma de “pacotes” criando lastros para o lançamento de títulos através do mecanismo de securitização, a queda dos preços gerou uma cadeia de outras quedas: dos imóveis para as hipotecas; destas para as cotas de securitização: delas para as cotas dos fundos de investimentos; de tais fundos para os seus compradores, em geral os bancos. Estava criada a cadeia desastrosa de eventos.
3) 2007: Muitos dos compradores de imóveis, sem conseguir pagar seus empréstimos, recorreram a uma segunda hipoteca, refinanciando suas casas; esse refinanciamento gerou novos lotes de hipotecas, desta vez de qualidade pior, conhecidas como “sub-prime mortgages”. São esses títulos “sub-prime” que provocaram o marco inicial da crise, ocorrido em agosto de 2007.
4) Março de 2007: Alguns meses antes, em março de 2007, Alan Greenspan, disse que a inadimplência das hipotecas sub-prime poderiam causar problemas para a economia, especialmente com a queda dos preços dos imóveis residenciais nos Estados Unidos. Os primeiros sinais da crise derrubaram as bolsas em todo o mundo. Aqui no Brasil o marco foi claro: O Índice Bovespa caiu 15,2% em 15 pregões, entre 19 de julho e 15 de agosto do ano passado, quando atingiu 49.285 pontos; a cotação do dólar subiu no mesmo período de 11,5%.
5) Julho de 2007: Os avisos não foram entendidos ou assimilados. O índice Bovespa voltou a subir, atingindo em maio de 2008 seu pico, 73.516 pontos. Tomando-se como base o sinal de julho de 2007, o índice Bovespa subiu mais de 23 mil pontos ou 46%! Os especuladores americanos aplicaram seus recursos na Bovespa e, apesar das advertências de Greenspan, vieram fazer seus ganhos aqui. Que levaram embora, evidentemente, saindo no pico.
6) Outubro de 2007: Gradativamente a crise se espalhou pelos mercados de hipotecas, de securitizações, pelos “hedges funds” e então os bancos americanos e internacionais foram gradativamente se contaminando por esses papéis podres. Curiosamente, o mercado não se “tocou”, as principais bolsas do mundo continuaram a subir. De seis bolsas analisadas, cinco tiveram seu pico em outubro de 2007; apenas a Bovespa foi ter seu máximo em maio de 2008, sete meses mais tarde. As quedas, a partir dos respectivos picos, ficaram entre um mínimo de 37,2% no Dow Jones, e um máximo de 65,1% no Índice Bovespa, conforme se vê no quadro 1 seguinte:
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Quadro 1: Pontos máximos, pontos atuais e queda em % de 6 Bolsas
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Bolsa
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Índice
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pico
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3/10/2008
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pontos
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quando?
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pontos
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queda %
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Nova Iorque
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Dow Jones
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14.164
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out/07
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10.325
|
37,2%
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Nova Iorque
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Nasdaq 100
|
2.238
|
out/07
|
1.470
|
52,2%
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Europa
|
Eurotop 100
|
3.335
|
out/07
|
2.339
|
42,6%
|
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Tóquio
|
Nikkei
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17.458
|
out/07
|
10.939
|
59,6%
|
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Hong Kong
|
Hang Seng
|
31.638
|
out/07
|
20.389
|
55,2%
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São Paulo
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Ibovespa
|
73.516
|
mai/08
|
44.517
|
65,1%
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Fonte: Bolsas; elaboração, EFC
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7) Abril de 2007: Não foi apenas Greenspan que deu o alerta; também a rede de notícias CNN mostrava, em artigo de 3 de abril de 2007 a gravidade da tormenta que se aproximava. O bancos emprestadores tinham fornecido em 2006 US$ 640 bilhões em empréstimos do tipo “sub-prime”, um nível duas vezes maior que o volume de dinheiro emprestado em 2005, deixando um claro sinal de que tais títulos hipotecários de segunda ordem estavam se avolumando. Também uma entidade de classe indicava que o volume sub-prime já atingia 20% do volume total de dinheiro repassado para hipotecas imobiliárias e 17% das compras de imóveis imobiliários de 2006.
8) Maio de 2007: O primeiro sinal da gravidade da crise aparece um ano e meio atrás de hoje, com a quebra da “New Century Financial Corp” que entrou em um processo de falência (“Chapter 11”), visando tentar se reorganizar após a quebra. Demitiu 3.200 empregados e vendeu seus ativos para o “Carrington Capital Management LLC” por US$ 139 milhões. A New Century era a maior financiadora de empréstimos imobiliários para pessoas com um mau cadastro de crédito, exatamente lastreadas nas hipotecas do tipo “sub-prime”. Entre os credores da New Century estavam o Bank of America, o Morgan Stanley, o Citigroup, o Barclays e o UBS com um total de empréstimos de US$ 8,4 bilhões. Como se vê, a crise se espalhava e atingia grandes bancos americanos e europeus. A New Century tinha feito um volume de US$ 51,6 bilhões de empréstimos sub-prime, colocando-os em grandes bancos, dos quais o principal emprestador foi o HSBC.
9) Junho de 2007: uma série de investidores começam a processar a IndyMac, a segunda maior empresa independente de hipotecas dos Estados Unidos, alegando ocultação de prejuízos. As perdas totalizaram US$ 896 milhões nos três trimestres de 2007.
10) Agosto de 2007: No ponto mais importante da crise, o Banco BNP Paribas anuncia que não poderia determinar o valor justo para resgate de cotas de três de seus fundos negociados nos Estados Unidos, como resultado de suas exposições aos mercados americanos de hipotecas sub-prime e, portanto suspendia o resgate das cotas desses fundos até que os valores corretos pudessem ser determinados. O Banco Central europeu imediatamente abriu linhas de crédito de 96,8 bilhões de euros, para garantir a liquidez dos bancos europeus que tivessem financiado papéis sub-prime americanos.
11) Outubro 2007: O secretário do Tesouro americano Henry Paulson, em um pronunciamento na Universidade Georgetown, Washington, diz que o aparente sucesso do mercado imobiliário americano irá cobrar um alto pedágio na economia americana, representando “um grande e significativo risco para ela; explicando que com o aumento da queda dos preços dos imóveis, crescerão as penalidades sobre o futuro crescimento da economia americana .
12) Novembro de 2007: a BBC londrina publica um estudo sobre o mercado hipotecário americano, mostrando que o estoque total de títulos gerados por hipotecas era de US$ 6,8 trilhões, dos quais US$ 1,3 trilhões eram do tipo “sub-prime”; mas a maior fatia, US$ 4,8 trilhões, era de títulos com lastro do governo federal (“Government backed Securities”). O estudo afirmava que a crise das hipotecas sub-prime agravou a baixa dos preços dos imóveis, fez com que o crescimento da economia se reduzisse e provocou bilhões de dólares em prejuízos nos bancos.
13) Dezembro de 2007: O gigantesco banco de investimentos suíço UBS anuncia perdas de US$ 10 bilhões geradas por débitos ligados ao setor de hipotecas imobiliárias do tipo “sub-prime”. O UBS havia declarado em outubro que a crise poderia lhe custar cerca de US$ 3,5 bilhões. O banco também revelou que a Corporação de Investimentos do Governo de Cingapura fizera um aporte de US$ 9,7 bilhões e de que um investidor do oriente médio havia capitalizado o banco em mais US$ 1,7 bilhões. Na ocasião o editor da BBC, Robert Peston, disse que esse fato indicava que a gravidade da situação, assim como tinha atingido o UBS certamente estava se espalhando pelo sistema financeiro mundial.
14) Janeiro de 2008: O maior banco americano, o Citigroup, declara que suas perdas dos últimos três meses de 2007 foram da ordem de US$ 10 bilhões, causadas principalmente pela crise das hipotecas sub-prime que tem castigado o setor bancário por meses seguidos.
15) Janeiro de 2008: O Banco de Investimentos Merrill Lynch anuncia um prejuízo de US$8,6 bilhões em 2007, que foi causado essencialmente pelo lançamento negativo de US$ 11,5 bilhões no valor dos ativos de hipotecas subprime e suas obrigações de débito colaterais.
16) Fevereiro de 2008: O Banco UBS anuncia um lançamento a prejuízo de US$ 18 bilhões, decorrentes de empréstimos ruins.
17) Fevereiro de 2008: O Banco Credit Suisse acusou uma perda de US$ 2,85 bilhões em posições de ativos de crédito estruturados, perda causada em parte por erros na precificação feita por alguns “traders”.
18) Fevereiro de 2008: O terceiro maior banco inglês, o Barclays Plc lança em prejuízos ativos de risco no valor de US$ 3,1 bilhões, embora tenha declarado um lucro de 7 bilhões de libras em 2007.
19) Março de 2008: O Banco de Investimentos Bear Stearns, na beira de um colapso, é comprado pelo JP Morgan por uma fração de seu valor de livro por intervenção do “US Federal Reserve”.
20) Setembro de 2008: duas empresas gigantes de financiamento imobiliário americano, a Fannie Mae, “corruptela” sonora de F(ederal) N(ational) M(ortgage) A(ssociation) e a Freddie Mac ou “Federal Home Loan Mortgage Corporation pediram socorro ao Governo; Alarmada pela enorme repercussão que uma eventual quebra das duas empresa poderia ter nos mercados mundiais, a Administração Bush aprovou um pacote de socorro que permitirá ao Governo injetar bilhões de dólares nas duas empresas através de investimentos e empréstimos. As linhas de crédito poderiam chegar a US$ 300 bilhões.
21) Setembro de 2008: O Governo intervém nas duas empresas Fannie Mae e Freddie Mac, federalizando-as, na tentativa de estancar o rombo que estavam produzindo e ao mesmo tempo sinalizar ao mercado que iria prosseguir em sua ação protetora.
22) Setembro de 2008: O Bank of America compra a Merril Lynch em uma transação de US$ 50 bilhões, e desta maneira criando uma enorme instituição financeira integrada. Esse valor é um terço do valor de mercado da Merril Lynch há um ano, indício da grave crise em que ela se encontrava. A Merril é a maior corretora de valores em nível mundial com 16 mil corretores espalhados por todo o mundo. A aquisição torna o Bank of America um gigante mundial que irá abranger, além de todas as atividades de um banco comercial, todo o espectro da Merril Lynch, incluindo negociações de renda fixa aos empréstimos via cartão de crédito, desta maneira rivalizando com o Citigroup, o maior banco americano em termos de ativos.
23) Setembro de 2008: O Banco Lehman Brothers se prepara para pedir sua concordata e possível liquidação. Depois da desistência do Barclays Bank de comprar a instituição americana. A instituição, um clássico banco de investimentos americano com 156 anos de existência chocou Wall Street apresentou seu pedido ao Juiz de falências de Nova Iorque. Seu estoque de US$ 560 bilhões de ativos podres lastreados em hipotecas imobiliárias o obrigou a lançar perdas de mais de US$ 300 bilhões, as mesmas causas que golpearam a Merril Lynch e a Bear Stearns.
24) Setembro de 2008: A gigantesca Seguradora AIG, com US$ 585 bilhões de empréstimos sob sua garantia, fez com que o Governo Federal interviesse com US$ 85 bilhões e passasse a ser o acionista majoritário com 79,9% das ações. A quebra da Seguradora foi assim impedida, a qual se ocorresse, definitivamente detonaria uma crise sistêmica de proporções mundiais.
25) 3 de outubro de 2008: depois de ter sido recusada pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em 29 de setembro em sua primeira votação, a proposta de ajuda financeira do Secretário do Tesouro americano, Henry Paulson é aprovada no Senado e na Câmara, sendo sancionada pelo Presidente George Bush. A ajuda cresceu para US$ 850 trilhões por inclusão de outros itens em relação à proposta original de Paulson.
26) Conclusões: Eis ai, caro leitor do “Opinião” , um retrospecto dos principais eventos dos últimos três anos, que culminaram com essa enorme crise financeira, que se iniciou nos Estados Unidos e se espalhou por todo o mundo.
Seus efeitos irão se estender por muito tempo, suas cicatrizes já se perpetuaram. Cabem lições para todos, em especial para os sistemas de controle dos Estados Unidos, que parecem ter se esquecido das recomendações prudênciais de Basiléia, feitas desde os anos 80 e endossadas pelo Grupo dos sete paises mais ricos. Vale a pena reproduzir o trecho sobre Basiléia II editado após a crise atual:
“Basiléia II é o segundo dos acordos de Basiléia nos quais estão as recomendações sobre legislação e regulamentações editadas pelo Comitê de Basiléia sobre Supervisão Bancária. O propósito de Basiléia II, que foi publicado em Junho de 2004, é o de criar um padrão internacional que os reguladores dos bancos deverão usar para determinar quanto de capital os bancos necessitarão para limitar os riscos financeiros e operacionais que os bancos faceiam”.
A supervisão americana falhou redondamente, mas a supervisão mundial foi praticamente nula. Um ingrediente que aparece nesse levantamento (e que não abordamos nos resumos acima) chama-se “corrupção” nas entidades que falharam nos Estados Unidos. As perdas foram escondidas, camufladas.
As auditorias falharam em apontar as falhas. As empresas de rating se atrasaram em suas reduções de seus scores. O Governo americano literalmente “dormiu no ponto”. Vamos todos pagar a conta, infelizmente.
E os investidores de última hora da Bovespa mais uma vez ficaram com o prejuízo. Faltou um alerta quando o índice subiu a 73 mil pontos, quando alguns bancos e seus economistas diziam que facilmente ele chegaria a mais de 80 mil pontos até o final de 2008. Eu, que estou no mercado de ações desde 1971, vi esse quadro várias vezes. Uma voz independente tem feito falta.
Veja minha entrevista na TV Terra através do link abaixo:
http://terratv.terra.com.br/templates/channelContents.aspx?channel=2484&contentid=211162