Editorial:Terremoto nas Bolsas: oportunidades?
O quadro abaixo resume doze meses de variação dos índices de sete das principais bolsas de valores do mundo e numericamente apresenta o estrago que está ocorrendo
em todas elas. Dentro do horizonte de um ano, as quedas dessas sete bolsas ficam entre um máximo de 29,4% na Europa e um mínimo de 18,0% na Bovespa. Mas se tomarmos como referencial os picos desses índices nos últimos doze meses, as quedas são mais fortes, variaram de um máximo de 37,4% para a Bovespa até um mínimo de 25,1% para Nova Iorque. A Bovespa ficou no máximo, significando a bolsa mais volátil.

Examinando com mais detalhe os dados do quadro, notamos que os picos de seis bolsas ocorreram entre outubro e novembro do ano passado; apenas a Bovespa teve seu ponto de máximo em maio de 2008, quando o índice Bovespa atingiu 73.356 pontos. A combinação desse fato com a observação de que a menor queda em um ano é a da Bovespa indica claramente que nossa bolsa e, por conseguinte nossas ações são mais resistentes à queda. Volátil mas resistente. Deverá ser a de maior subida na recuperação dos mercados. Graças aos fundamentos do Brasil, excepcionais em relação ao passado.
O fato de que Hong Kong, Buenos Aires e São Paulo apresentam quedas muito maiores do que “Nova Iorque” indica que essas três bolsas são mais voláteis do que a americana e isso significa que, passada ou pelo menos amainada a crise, essas bolsas atrairão o capital especulativo mais do que as bolsas estáveis. Ou seja, estamos agora em face a um excelente ponto de compra a médio prazo.
O terremoto não terminou ainda e cada novo dia traz uma nova quebra. Tudo começou com o dinheiro barato e fácil nos Estados Unidos. Isso levou os americanos a se endividarem, especialmente comprando imóveis. Em um dado momento, o mercado imobiliário se saturou e os preços despencaram. Como nos Estados Unidos os haveres de dívidas imobiliárias são imediatamente transformados em hipotecas, e como estas por sua vez são securitizadas (ou seja, transformadas em títulos de longo prazo, pagando muito mais do que os títulos do governo americano), quando ocorreu a desvalorização dos imóveis, tudo veio por água abaixo: as hipotecas, as securitizações, os fundos alavancados (“hedge funds”) e todos os bancos do mundo que haviam, gulosamente, comprados esses títulos. A “bucha” foi geral e largamente espalhada por todos gulosos e desprecavidos.
O governo americano (que está no final da administração Bush) tenta segurar a quebradeira geral mas como o caso do Lehman Brothers mostrou, ele já percebeu seus limites, visto que o fenômeno se espalha. Rigorosamente ninguém sabe até ele vai. Tenho recomendado compra de títulos do tesouro direto (www.tesourodireto.gov.br) mas isso não é tão simples assim. São muitos títulos e a escolha é complicada. Para os mais profissionais e que gostam de algum risco, os níveis atuais da Bovespa são de compra e não de venda. A subida na recuperação da Bovespa será muito forte, contudo. Vale a pena apostar algo das economias (20% a 40% ?) nessa recuperação.
O Secretário do Tesouro americano acaba (em 19/de setembro de 2008) de encaminhar ao Congresso uma proposta na qual propõe a criação de um fundo para comprar ativos relacionados com hipotecas de qualquer instituição estabelecida nos Estados Unidos de modo a garantir a estabilidade do mercado financeiro americano. Ele terá plena autoridade para executar o plano proposto em um horizonte de dois anos...
A proposta lhe dá poderes não só para a compra, mas também para gerenciar e vender, bem como para designar agentes para executar as ordens. O orçamento de compra fica limitado em US$ 700 bilhões de dólares. A proposta também pede que o limite da Dívida Pública seja aumentado para US$ 11,315 trilhões.
A idéia dos especialistas do Governo, entendida através de declarações deste fim de semana é de que o sistema regulatório americano falhou, mas que será preciso primeiro estancar a extensão da crise, para em seguida investigar onde tais falhas ocorreram e o que será necessário fazer para melhorar.
Algumas questões mencionam que estamos assistindo o fim do liberalismo americano e o início de um forte intervencionismo. O Governo argumenta que se essas medidas não fossem tomadas (começando pelo caso do Bear Stearns, seguindo-se pelo caso do Lehman Brothers e pela Seguradora AIG) o estrago seria incalculável pois todo o sistema financeiro entraria em uma cadeia de eventos consecutivos, gerando riscos sistêmicos gigantescos, que fatalmente levariam o mundo todo a uma recessão prolongada, com perda de milhões de empregos.
Parece que isso em parte já está acontecendo: os jornais ingleses relatam uma perda superior a cem bilhões de libras nas ações cotadas em Londres na semana dita como fatídica,
15 a 19 de setembro.
Os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, agora na reta final de suas campanhas, estão sendo convidados a se pronunciarem sobre o que farão em seus propostos cem primeiros dias de governo, ou seja, dizerem agora como reagirão a essa crise, entendida como uma das maiores que já ocorreu no sistema financeiro americano e mundial.
O curioso é que outras áreas empresariais dos Estados Unidos, que não pertencentes ao segmento financeiro, começam a pretender socorro do governo americano. Por exemplo, o presidente da General Motors pede ajuda para conseguir desenvolver carros elétricos, argumentando que eles podem ajudar a reduzir as compras de petróleo. Sabe-se que a GM tem estado com suas finanças abaladas.
Para o Brasil, as indagações são muitas: até que ponto o país e sua economia poderão ser afetados? O crescimento será menor? Em que medida se espera dificuldades com a balança comercial e por conseqüência com o balanço de pagamentos? E o crédito externo? Os juros internos? etc. A rigor, ninguém tem ainda respostas. São tempos turbulentos com conseqüentes riscos maiores.